A doutrina da Graça

As primeiras Igrejas evangélicas (a partir de 1517) tiveram a capacidade de fazer frente às exigências de padrões religiosos e sociais mais adequados para um novo mundo que estava nascendo com o final da Idade Média. Naquele período, os primeiros  protestantes ofereceram como resposta cristã, para o momento histórico, a doutrina da justificação pela Graça. Segundo essa doutrina, o indivíduo, numa relação pessoal, é aceito livremente por Deus, sem a ajuda de nenhuma mediação como acontecia na Igreja Romana.

A Graça divina transforma circunstâncias, liberta os indivíduos e lhes coloca numa nova dimensão espiritual que nos faz cônscios da mensagem evangélica. Esta mensagem esta inseparavelmente ligada à afirmação da Justificação pela Graça mediante a fé. É perante essa afirmação que a Igreja como Igreja permanece de pé ou cai, e que as coisas são julgadas como válidas ou não perante Deus.

O Evangelho da Graça precisa, e deve, ser resgatado com toda sua força em nossos tempos a fim de que também possamos, nós e o mundo, ser tocados e transformados por ele permitindo que o novo tempo que se iniciou em Cristo se materialize. A mensagem evangélica é o anúncio da Justificação pela Graça que implica em: reconciliação, inclusão, e comunhão. A mensagem da Graça para nossos dias é uma palavra de reconciliação, uma exigência de inclusão, e um convite para a unidade.

A doutrina metodista da Graça

Nós, metodistas, podemos melhor entender a Graça de Deus fazendo uma comparação entre o processo de salvação e uma casa. Nessa casa, a graça preveniente seria a varanda, a graça justificadora, a porta e a graça santificadora, os cômodos da casa.

Como o próprio termo indica, a graça preveniente é aquela que precede a salvação da pessoa. Ela é como uma varanda: ficamos diante da casa, mas não dentro dela. É graça que age na vida humana, sendo anterior à consciência que a pessoa tem de Deus. Ou seja, trata-se da ação de Deus no coração humano buscando despertá-lo para sua verdadeira condição de filho de Deus.

A graça justificadora e a santificadora nos mostram a participação divina e a resposta humana no processo de salvação. A justificação dá início ao processo de restauração da imagem de Deus no ser humano. Isso significa entrar num novo relacionamento com Deus. Este é o momento em que Deus abre a porta da casa para o ser humano entrar, concedendo-lhe salvação e fé (Fp 2.13).

Por sua vez, a graça santificadora compreende a realidade do novo nascimento (Jo 3.6), quando Deus inicia o processo de santificação, renovando todos os aspectos da vida humana.

ILUSTRAÇÃO: A doutrina da Graça na visão metodista: a varanda como a graça preveniente (arrependimento), a parta como a graça justificadora (a fé) e os cômodos da casa como a graça santificadora (santificação)

I – A Graça de Deus reconcilia

Em Romanos 3.19-28, vemos que o apóstolo Paulo está preocupado em mostrar como a justificação acontece na vida das pessoas. Ele escreve para uma comunidade que ainda não conhece, e ao fazê-lo aborda a questão da justificação a partir do ângulo dos judeus e dos gentios. Os primeiros teriam como motivo de confiança em sua salvação o fato de serem seguidores da Lei. O que fica claro é que longe de salvá-los, a Lei é fonte de condenação, pois salienta seu pecado e sua incapacidade de cumprir os mandamentos. Do lado dos gentios embora eles não tenham a Lei seguem a orientação da Lei interior pela busca de uma vida virtuosa. Os dois grupos são tidos como injustos. Os dois estão pecando. A situação dos dois é a mesma. Por si nada podem fazer. Cabe a Deus resolver o problema. O estado anterior à justificação é visto como totalmente desfavorável para o ser humano. O ser humano é descrito como estando totalmente afastado de Deus, aparentemente sem chances de se voltar para Ele. Todos os esforços humanos são considerados como inúteis para se colocar numa posição de igualdade perante Deus.

Esse estado humano pode ser entendido como afastamento, ruptura com Deus. Nesse estado de alienação, a pessoa experimenta sua existência como sendo cheia de ambiguidades. Sentimentos conflitantes brotam desse estado: ansiedade, culpa, solidão e condenação. Ansiedade, em relação ao futuro e ao seu fim último. Culpa, porque muitas vezes a pessoa se sente como responsável pelo próprio estado em que se encontra. Solidão porque toda separação nos leva a sentir não somente a nossa distância de Deus, mas a separação de nossos semelhantes. Condenação porque a Lei de Deus é vista como acusação e a resposta divina ao nosso pecado é percebida como ameaça às nossas vidas. No verso 19, Paulo dá a conhecer essa realidade quando ao falar do ser humano como estando todos nivelados por baixo perante Deus. Todos estão no mesmo fosso. A sentença contrária é igual para todas as pessoas. É como diz aquela música popular: “se correr o bicho pega, se ficar o bicho come”.

No estado de afastamento de Deus, todos os atos de reaproximação humana são falhos. São pretenciosas tentativas de auto-salvação não levando em conta a limitação humana.

Nada que se tente pode transformar essa realidade. Diante de Deus os argumentos humanos se calam. Na presença do Santo o pecador, a exemplo de Isaias só tem a dizer: “ai de mim que estou perdido, porque sou homem de lábios impuros, e habito no meio de um povo de impuros lábios, e os meus olhos viram o Rei, o Senhor dos Exércitos”! (Is 6. 5).

Surge a constatação, na mente humana, de que ela é inaceitável perante Deus, e por conseguinte não consegue aceitar a si mesma e aos seus semelhantes. Para contrapor essa realidade, e sanar esse mal, é anunciada a Justificação pela Graça que se manifesta como palavra de aceitação. O “agora, porém” do v. 21 é o fato novo que indica essa nova realidade da justificação.

O alcance dessa justificação é entendido com o ato pelo qual é conferida a razão de ser à pessoa humana. Deus faz com que o ser que não era nada, passe a ser digno de vida. Na justificação é dito a cada pessoa que ela é aceita, que sua existência é algo válido à despeito de toda as afirmação em contrário. Justificar é como valorizar, dar dignidade, conceder direito à vida, dizer que todos têm direito a viver.

Viver a Graça de Deus, saber-se justificado pela Graça, é aceitar que somos aceitos. À despeito das nossas atitudes dizerem o contrário, somos aceitos. Apesar de não conseguirmos nos aceitar, somos aceitos por Deus. Embora as circunstâncias, as pessoas, os complexos de cada um, dizerem que somos indesejáveis, somos aceitos. Apesar das autoridades religiosas procurarem determinar quem é ou não digno de aceitação, somos aceitos. Apesar do tempo, da história, do pecado, de nós mesmos, somos aceitos.

II –  A Graça de Deus inclui

Um segundo resultado da Graça de Deus na vida humana é que ela faz cair por terra toda tentativa de exclusão. Como palavra de reconciliação, a Graça diz a toda pessoa que ela, em Jesus Cristo, é aceita diante de Deus. A iniciativa de redenção é divina. Parte de Deus a ação em favor das pessoas para que em Cristo elas tenham sua libertação. É Deus que realiza a reconciliação, e que ao mesmo tempo dá esse ministério à Igreja. A pessoa é justificada pelo que Deus faz e não pelo que ela faz.

Contrariamente a isso, nossa sociedade realiza uma justificação com base em outros parâmetros. Dia a dia somos intimados a dizer o porque de nossa existência. Temos constantemente o desafio de justificarmos nossa existência no mundo. A sociedade cobra justificação, e somente justifica aqueles que estão produzindo algo. A produção é critério para a justificação social. Aquele/a que não está produzindo é visto como descartável pela sociedade. Quem não produz está sendo um peso, logo, é um potencial candidato para a exclusão. Nessa conta entram as crianças em idade escolar, os/as aposentados/as, os/as desempregados/as, aqueles/as que não tem um chão para plantar, as donas de casa cujo trabalho não é reconhecido, e outros/as.

A mensagem da Graça desarma aqueles que querem selecionar quem pode ser incluído. A sociedade não pode excluir aqueles/as a quem Deus dignifica. Deus não olha para os méritos pessoais. Uma pergunta do tipo “o que você fez para merecer tal recompensa” diante de Deus não tem cabimento. A lógica divina é diferente da lógica do mercado. Deus aceita, Deus inclui, Deus se abre a todo aquele que pela fé assume para si a justiça de Deus em Cristo. Tanto na sociedade como na Igreja é inadmissível a exclusão.

A mensagem da Graça denuncia como sendo coisa nula todo sistema, organização, religião e comportamento que pretenda manipular a vontade de Deus. A barganha não tem lugar no Evangelho da Graça. Um somatório de obras, de obrigações, não compra a benção de Deus. Deus não se vende. Deus não é objeto de grupos, sistemas, igrejas, barganhas. Deus não pode ser encostado na parede. Sua bênção é gratuita. Vem como fruto de seu amor por seus filhos e filhas. É dom imerecido de um Deus que esta além das maquinações humanas.

III – A Graça de Deus une

Uma terceira dimensão da Graça é que ela é um convite para a comunhão, para a unidade. Se pessoas diferentes, que sustentam pensamentos divergentes, são justificadas por Deus devido à sua Graça manifesta em Cristo como não sustentar que elas têm o vínculo primário para a comunhão?

Até hoje o Corpo de Cristo padece devido às divisões que lhe foram, e são, impostos. Não bastando isso, os grupos cristãos mantêm constante hostilidade uns pelos outros. O pensamento do mercado tem influenciado decisivamente muitos grupos. Estabeleceu-se uma concorrência frenética pautada pela venda de “produtos religiosos” a crentes consumidores. A mensagem da Graça tem sido paulatinamente substituída pela alternativa de filiação ao grupo que oferece mais vantagens em forma de bênçãos. Criam-se guetos cristãos que rivalizam entre si. À reboque, muitas igrejas históricas tem entrado nessa corrida desenfreada. Procuram copiar modelos tidos como “eficientes” e se esquecem do legado da Reforma: “a justificação é pela Graça mediante a fé”.

Nenhuma igreja pode excluir outra. Nenhuma igreja pode pretender ser a verdadeira e única representante de Deus na terra. Nenhum indivíduo pode ver no seu grupo a exclusiva mediação entre os seres humanos e Deus cujo resultado é a salvação, isso seria idolatria.

Por isso, A Justificação pela Graça é um convite para a comunhão. É um convite na medida em que as particularidades, as pretensões individuais, as obras diferentes são diluídas no princípio de que somente pela Graça somos aceitos. Se nossos méritos são insignificantes diante de Deus também o são diante uns dos outros.


Prof. Afranio Gonçalves Castro